sexta-feira, 2 de março de 2018

Sobre o amor


Eu tinha 16 (ou quinze), quando descobri o amor pela primeira vez. Aquele amor que não é só um sentimento, é físico. Que você sente pontadas no estômago e começa a sentir dores em lugares que a anatomia humana não explica. Passei a descrever esses lugares como sendo a alma. Essa, que de fato, nem se sabe se existe. Mas quando descobri o amor, ele veio cheio de tanta dor que, para não parecer um ser hipocondríaco, assumi a existência da alma, para que nela fossem depositadas todas aquelas dores.
Aos 25, o amor chegou em mim da forma mais devastadora. E aquela alma, nesse momento, tomou uma proporção tão grande, que era só ela que doía. Durante algum tempo, transformei-me em minha alma, e vagava em dor, um ser sem corpo, porque o corpo era tomado pela alma que doía.
Nunca vivi o amor sem dor. E, talvez por isso, depois dos 25, decidi que não queria mais amar. E assim foi, durante muito tempo. O que amei, foi amado sem graça, sem nuances. Vivi possibilidades de amor que, na ausência de minha alma, não ousava chamar de amor.
O amor é uma dor, dizia Zé de Serrania. E, para mim, a dor era a condição sinequanon do ato de amar. O amor, sem dor, não sobreviveria. E eu, que não queria viver a dor, optei então, por não mais amar.
Ainda assim, ao som de Vinícius e Cartolas, Chicos e Caetanos, ouvi em Cazuza a sua definição sobre quem não sabe amar. Entre uma coisa e outra, guardei na alma a frase que dizia sobre esperar alguém que coubesse em seus sonhos e preferi bradar sobre os amores que nunca tive. Como aqueles de Folhetim, que vêm da carne e do desejo e permanecem no tempo de uma gozada.
Gozo, gozas e te quero fora. Longe de mim. Longe do meu ninho, do meu espaço, de qualquer faísca que possa acender em mim a vontade de amar. Vá-te.
Aos 29, uma dessas faíscas cai onde não percebo, e quando me dou conta, o fogo está tão alto a ponto de eu não encontrar a saída. Achando que podia controlar o fogo, permito que aquela fagulha pudesse acender o afago em meu ser. Redescubro minha alma. Redescubro-a somente a tempo de ter que descobrir também o antídoto que a fizesse parar de arder em chamas. Porque, posto que é chama, viraram chagas em meu próprio ser.
Sobre amar o outro, passei a me perguntar que ser era aquele que me tornara, eu mesma, que não se reconhecia quando amava outrem. Sem nenhuma resposta que me satisfizesse, optei por seguir novamente sem querer amar.
Mas amar não tem a ver com querer. Com escolher em que momento alguém vai atravessar a rua na sua direção e fazer vibrar em você algo que você nem se lembrava que existia dentro de si. E mesmo sua mente dizendo que não quer, aquela alma, vem à tona.E aí, você se esquece que a alma é o entulho da dor. E não percebe que a dor que está lá é um acúmulo de todas as outras dores. 
E quando o amor me arrebatou novamente, ele chegou nesse entulho de lodo e de dores em decomposição. E quando a dor batia na alma, que batia no corpo, eu quis retomar o controle. Eu quis controlar tudo e dizer para a alma que era eu quem comandava. Essa mesma eu, que seguia esperando alguém que coubesse nos meus sonhos.
E entre sonhos e dores, entre amar e não me reconhecer, me reconhecer e não querer amar; entre não deixar que o amor fosse maior, minha alma bradou para mim mesma mais uma dor. E meu corpo se redimiu. E tudo se diminui a nada. E mandou o amor ir: vá-te. 
Mas com ele, dessa vez, também fora uma parte de mim. Aquela parte que eu não queria deixar de ser, mas que agora, só existe fora de mim, em outro ser.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Ando cansada. 
Cansada de um cansaço quase crônico. 
Cansaço de quem procura e não se acha. 
De quem olha pro lado e não se vê. 
Cansaço de quem não tem molde e não se encaixa.
De quem não se acha. 
Do que não encaixa. 
De quem não se vê.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

À deriva


Da desordem dos dias, desistiu a alma do corpo
Taciturno, despiu-se o corpo de si mesmo
Desalmados, os olhos se despiram da beleza
Das cores do inverno, só enxergavam cinza
Na janela, cortinas em luto
Fechadas como muralhas
Visão turva de uma vida inacabada
De sonhos negligenciados durante a jornada
Da desordem do corpo, desistiu a alma dos dias
Das visões turvas dos olhos que despiram-se de si mesmos
Das cores que as cortinas em luto, recusavam-se a exibir
Dos sonhos que, no caminho, se esqueceram de existir
Da desordem da alma, desprendeu-se o corpo
Lânguido, já não via mais os dias
Nos olhos, pupilas em luto
Visão turva de sonhos inacabados
Muralhas esquecidas
Da janela dos dias 

quarta-feira, 5 de julho de 2017

A besta da morte

Tem dias, que sinto que vou morrer de mim mesma. Que dentro de mim existe um bicho selvagem, uma fera indomável, que mostra sua fúria.

Essa fera, ora contida, ora esganiçada, quer devastar a mim. E somente a mim.

E começa aos poucos, mostrando a sua inquietude. 

Primeiro, um grito. Um urro grave e descontido que ecoa no estômago, sobe esôfago acima, mas o contenho na garganta.

Depois, as garras. Querem perfurar a pele. Membrana, tecido, as sinto, raivosas e impiedosas, chegando na derme, com sua selvageria mais visceral.

Então, os olhos. Vermelhos, em chamas, vão penetrando violentamente os pensamentos. Já dentro da cabeça, devora cada pedaço de sanidade que teime em existir.

Domina. 

Sou bicho. Irracional. Raivoso. Em fúria. Quase um transe. 

Dentro de mim, existe essa besta. Prestes a sair pelo meu ventre, dentes em posição de ataque, corpo em posição de morte.  

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Vísceras



Às vezes parece que o tempo para. Ou a gente para no tempo.

Dias frios, cinzas, vazios. Repletos de significados, ou cheios de tempo para se fazer ressignificar a própria existência.

Lá fora, o vento. O barulho dos carros e das sirenes. Os gritos de pavor ou de êxtase.

Aqui dentro, silêncio.

Inquietante, sufocado pela avalanche de tons e de notas em que ecoam as vozes dos demônios que habitam dentro da alma.

Um vulcão, há muito, adormecido. Onde dançam as lavas incessantemente, buscando um espaço por onde possam, finalmente, erupir.

Cantos, danças, ritos... todos pagãos. Gritos silenciados pelo excesso de civilidade.

Ecoam, bradam, brincam, ferem, pedem passagem.

Dionísio, Baco, Hefésio, Prometeu, Zeus, Hera, Afrodite, Thor. Todos, misturados, lutam, gritam, festejam, brindam, pedem... ouçam.

Silêncio.

Escuro e vazio, silêncio. Silencio. Grito. Gritam.

A dança das lavas segue... quente, pulsante, inquieta. Viva.

Há tempos em que o tempo para. Há de se observar esse tempo.

Tempo que pulsa e emerge. 

Quente. Vivo. Vísceras. Vida. 

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Sempre, enfim


Pertenço a lugar nenhum, fora de mim. Vou-me embora sempre. Minha religião é o amor. Sou devota das vontades, que me devoram a alma e me inquietam o espírito. Sou pagã de mim mesma, pertenço ao mundo. Qual mundo. O que me conduz são os desejos, que são e deixam de ser. A incógnita, o vazio preenchido por qualquer coisa que não seja o mesmo. Gosto de gente, das gentes, da gente. Dos sonhos e dos desejos que não me pertencem, mas falam de mim. Flerto com as possibilidades, converso com o acaso, procuro uma rima, um ritmo, qualquer coisa. Qualquer coisa que não seja isso que vem pronto, entregue e digerível. Gosto das possibilidades. Converso com o impossível. Danço com o que não conheço, escrevo sobre o que não sei. Pertenço a nenhum lugar. Sou ar, sou vento, sou asas. Do tédio renasço, reinvento. Me mato e ressuscito. Sou de lugar qualquer. Dos dias que viram noite, das noites que não acabam, dos dias que terminam, das madrugadas que calam. Pertenço a coisa qualquer, não me acho, coisa nenhuma. Me transporto pra qualquer lugar, dentro ou fora de mim. Sou asas, sou ar, sou vento. Intenso que sopra pra dentro. Pertenço a lugar nenhum, vou-me embora sempre. Reinvento sonhos, invento histórias, conto histórias para mim mesma. Ouço, aceito, digo em voz alta, acredito, desacredito. Flerto com meus desejos, desiludo-me com o acaso, visto luto para o impossível, desisto, resisto e vou-me embora. Sempre. Vou-me embora, enfim.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Justificativas

Até hoje, decisões tomadas, sem razões claras. Quiçá, motivações pontuais. 
Nem sempre houve análises profundas, prós e contras. 
Houve escolhas. A princípio, impensadas. 
Aquela intuição, algo dizendo que devia ser assim. Então vamos. 
Decidimos primeiro, pensamos depois. Ou nem pensamos. 
Um belo dia, entre o gole de cerveja e a abocanhada no espetinho, algo se torna claro. 
Uma explicação com a coerência digna de um planejador. 
Que chata a vida de quem calcula tanto. 
Tão mais revelador é num dia desses, despretensiosamente, chegar a alguma conclusão.
Qual foi? Sabe-se lá. 
Foi-se com a espuma da cerveja ou com a fumaça da churrasqueira.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Um espelho

No fim, o que resta, são as lembranças dos dias.
Dos medos. Alguns um tanto infantis e outros justificados por sentimentos de auto-preservação.
Das alegrias. Ora cultivadas, ora gratuitas, ora forçadas.
Dos amigos, dos amores.
Ah, os amores. Aqueles que te fizeram chegar em qualquer lugar onde você nunca mais vai querer voltar. Ou aqueles outros que te amaram tanto, mas você deixou passar.
O tempo. O olhar no espelho. Os significados.
No fim, toda a dor vira alegria, pois em algum momento a promessa de rir dela acaba se cumprindo.
A tempestade vira calmaria. E o sentimento de imbecilidade é inevitável.
As guerras, mazelas, por sua vez, seguirão existindo. E as dores que as acompanham também.
No fim, tudo é lembrança. Porque não há de haver tempo que a apague.
E quem sabe nesse fim, alguns equívocos possam ser perdoados. Pelo menos por nós mesmos.

Essencialmente por nós mesmos. 

domingo, 23 de novembro de 2014

O dia em que meu celular não virou crack



“Dizem que existem momentos na vida de uma pessoa que mudam a vida dela pra sempre”. Era isso que estava gravando no celular para eu não me esquecer de como gostaria de começar o texto que eu viria a escrever assim que chegasse em casa. Por isso, caminhava com uma certa urgência. Queria escrever logo aquela história, a do Clebão, uma dessas figuras da cidade que passam por você e te contam sua vida. Desses seres que já passaram por tantas, que hoje carrega um saco de latinhas e um coração consertado. Mas essa é outra história, é pra depois. Não pode correr o risco de se tornar coadjuvante dessa história aqui. 

Por causa da urgência em escrever, deixei meus amigos e parti caminhando para casa. Quando terminei de gravar o texto no celular, fui abordada por uma voz – moça, eu só vou falar uma vez. Aquela fala e aquela voz não me eram estranhas. Há cerca de um mês, de pé, no ponto de ônibus, ouvi essa mesma voz, falando exatamente a mesma coisa para a moça que estava sentada a menos de 3 metros de mim. Mas nessa manhã, a voz estava ao meu lado e falava para mim. Queria um herói naquele momento. Desses que salvam pessoas em perigo em plena 5 da manhã no centro de São Paulo. Não, eles não existem. E na falta deles, resolvi sê-lo, herói de mim mesma. Justo eu, que sempre bati no peito e me gabei por andar tão confortavelmente pelas ruas do centro, a hora que fosse, sem nenhum infortúnio. Até ontem, até essa manhã. Em questão de segundos, me lembrei que na ocasião do ponto de ônibus, essa voz levou o celular da moça. Enquanto eu tentava confortá-la do susto, da invasão, concluímos que o celular dela seria trocado por uma ou duas pedras de crack do outro lado da rua. Não, meu celular não vai virar crack! Decidi então correr. Mas calculei mal a distância entre a rua e a calçada. Caí. Eu de um lado, celular do outro. Ouvi a voz vindo em minha direção, ouvi algumas vozes perguntando se precisava de ajuda. A voz do ladrão se defendia dizendo que eu tinha caído sozinha. A essa altura, joelho sangrando, já estava de pé, andava novamente, e a urgência era outra. Vi as três pessoas que perguntaram se estava tudo bem, saindo correndo quando o ladrão se aproximou. Me virei para o ladrão e gritei SAI! Assim, como se grita a um bicho. E ele saiu. 

Andando, tentando me recompor, caminhei de volta para a presença dos meus heróis, aqueles a quem eu tinha deixado por causa da urgência de escrever. Na volta pra casa, decidi ouvir o áudio que estava gravando no momento da abordagem. E para minha surpresa, está tudo lá. Das palavras que eu gostaria que dessem início à história que está por escrever, ao “sai”. E graças aos meus heróis amigos, fora um joelho roxo e menos inchado do que poderia estar se não tivesse sido cuidado por eles; fora uma sensibilidade por causa do que me acontecera - que convenhamos, não foi tão assustador assim, mas foi o suficiente para me fazer refletir; meu celular não virou crack. 

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Prelúdio

Existem momentos em que a vida parece perder a força. 
Momentos em que o tempo parece querer lhe contar um segredo. 
E é preciso não mais que um profundo silêncio para ser capaz de entendê-lo.
Existem momentos em que essa montanha russa diminui a velocidade e se acalma. É quando ouve-se o vento e abre-se os braços para um abraço, longo, demorado. E os olhos se fecham e passam a enxergar o que está dentro e não mais o que está adiante. 
Existem esses momentos, da pausa, do descontrole do tempo. Dos segredos que a vida pede para te contar, mas que você nunca para para ouvir. 
Esses momentos, que não significam falta de vida, mas um respiro. Um prelúdio.
Existem momentos que a vida pede para que paremos de ter força. Para sermos acolhidos por essa força que nela já existe.